quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Da casa da minha avó via-se o Tua


A verdade é que da casa da minha avó se via o Tua. O Tua é um rio, como diria o outro, em forma de coisa assim. Durante anos pensei que o Tua nascia no Cachão, passava pelo cruzamento da via férrea (pare,escute e olhe), ultrapassava a quinta de S. Silvestre e morria na estação da Ribeirinha. Mesmo que o rio continuasse a descer, ele não descia na minha geografia. A verdade é que o Tua se via de casa da minha avó. Via-se do alto da Longra, da casa do senhor que foi picado por um lacrau, da capela onde se enterravam os mortos, da casa onde se salgava o presunto, do pátio onde eu jogava à bola (como sempre, "muda aos cinco e acaba aos dez") e do tanque de sulfato no alto da vinha. O Tua era o rio que no Inverno só podia ser atravessado com saltos de seixo em seixo - os mesmos seixos onde as caseiras, as filhas das caseiras, as sobrinhas das caseiras e as netas da caseiras lavavam a roupa (se o Tua tivesse uma banda sonora seria definitivamente o Povo que Lavas no rio). O Tua tinha um fundo lodoso, água fria, cobras, troncos e barcos pequeninos feitos de quatro tábuas de madeira e um só remo. Da casa da minha avó via-se o Tua e, no seu rebordo, a automotora (sabe-se lá porquê fazia questão de nunca passar a horas certas, tão desafinada como o relógio de corda que está perto da sala do rádio). No outro dia a automotora não passou. Deus queira que volte a passar.

4 Comments:

Blogger Ana Cláudia Vicente said...

Da tua letra vê-se o Tua ao perto.


[voltaste inspirado, pá]

10:46 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Brilhante, bem escrito, sem tirar nem pôr uma virgula. Menino meus parabéns. Já agora o sorriso dela quando recebeu as flores compensou a aventura, cavaleiro em trânsito de afectos?
Maria João

http://mulheresforadehoras.blogs.sapo.pt/

10:48 da manhã  
Blogger Dia said...

Mesmo muito bonito.
Só te falta aprender o nome das árvores para seres escritor. É o mais fácil.

3:21 da tarde  
Blogger Antonio Balbino Caldeira said...

Nada se escreve melhor do que aquilo que se sente. sai forma perfeita, mesmo sem cuidar da forma - ou sai melhor porque se está para além dela - ou aquém, o que dá o mesmo - que é substância.

10:23 da tarde  

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