quinta-feira, maio 25, 2006

Futebol

No outro dia, estive a ver um debate sobre o mundial na Sic Notícias. O José Medeiros Ferreira - a quem aproveito para dar (e à bela primavera também) os parabéns atrasados pelo primeiro aniversário do seu blogue - disse uma coisa que eu reputei de muito profunda. Ele disse que o filho, Miguel, sentiu o hino pela primeira vez num jogo de futebol. Eu entendi muito bem o que ele disse. Não li estas declarações como uma apologia do patriotismo fácil. Penso que o Medeiros estava, mais do que tudo, a realçar o papel do futebol nas relações que se estabelecem entre as pessoas - no caso entre pai e filho. E isto vem ao caso porque eu poderia facilmente dar dezenas de exemplos de como o futebol é uma coisa verdadeiramente importante. Poderia dizer, por exemplo, que o meu tio Manuel me levou a ver o Portugal-Rússia que ganhámos com um penalty roubado sobre o Chalana e convertido pelo Jordão. E poderia dizer que também me levou a ver o Porto-Benfica em que o Duda partiu a perna ao Alberto e se ouviu um crack no Jamor. Poderia ainda dizer que o meu tio é das pessoas mais importantes na minha vida e que quando eu vivia em Inglaterra ele me deixava os resultados do Sporting, os marcadores e o relato pormenorizado das jogadas dos golos no atendedor de chamadas. Também posso dizer que eu e o meu primo Rodrigo jogávamos pelo Sporting contra o Benfica dos meus primos Lourenço e Simão e que hoje eu sou mais próximo do meu companheiro de equipa do que dos outros primos. Poderia ainda explicar que em situações de intimidade verdadeiramente difícil - doenças, tragédias, mortes - o futebol sempre serviu para desanuviar o ambiente. Na minha família, por exemplo, é mais fácil analisar se o Figo jogou bem do que dizer que gostamos muito uns dos outros. Poderia ainda lembrar que quando fui visitar uma pessoa muito amiga à cadeia lhe levei uma camisola do Benfica e que tenho saudades de explicar à minha avó - ouvia mal - que o jogo na televisão era entre equipas que lutavam para não descer de divisão no campeonato inglês. Poderia até explicar que hoje a minha namorada me comprou cromos do Mundial. Mas isso o Pacheco Pereira não ia entender.

7 Comments:

Anonymous sf said...

Bonito post.

9:35 da tarde  
Anonymous propranolol said...

FTA corre o risco de se tornar maçador e ainda por cima já não corre o risco de ser repetitivo. É que já cansa falar sempre de clubes topo de gama. Elitista! Mas não desisto: vou continuar à espera que dedique um post igualmente acalorado a um dos próximos jogos entre o Atlético Clube da Atalaia da Barquinha e o glorioso Sporting Clube da Carregaleira da Serra. Enquanto espero, no domingo vou outra vez a Sintra ver o Fernando Lemos. Conhece, FTA? E não queira irritar-se com este comentário, apeteceu-me brincar, pronto, que mal é que tem?

2:26 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Falar verdade


Jornalista da RTP
Quem falar verdade, ganha. Ao fim de mais de cem edições do programa Prós e Contras constato isto mesmo. Por mais difícil que a ideia seja de aceitar, só a sinceridade convence! Parece-me que esta lição serve ao País. Atravessamos uma crise de identidade. Acreditamos que tínhamos conquistado para sempre um espaço na primeira linha da Europa civilizada. Que os ganhos de nível de vida não tinham retrocesso. Que a sociedade do lazer estava perto. E que não era necessário pensar muito mais, para lá das respostas certas às perguntas dos concursos de televisão.

A vida torna-se tão fácil que nos esquecemos de apreciar as coisas simples. A televisão apanhou a boleia e passou os últimos anos a oferecer produtos descartáveis, rápidos, baratos e que não deixam marca. Feliz-mente, e apesar das bolandas, o serviço público foi resistindo e ganhando credibilidade. É difícil! A sociedade gosta da farândola e não tem paciência nem tempo para compreender.

É por isso tão importante que a televisão lance um olhar profundo e crítico sobre o País. E como? Em grelhas diversificadas e articuladas. Investindo no mais difícil e garantindo que a lógica empresarial e economicista não asfixie a qualidade. Estou convencida de que a recuperação nacional passa pela mudança de mentalidade e atitude. E que a televisão tem a palavra decisiva neste processo.

Entretenimento e Informação devem trabalhar com o mesmo objectivo: salvar e fortalecer o núcleo identitário da Nação, ainda que seja cada vez mais complicado manter a Soberania. Como refere o general Loureiro dos Santos no seu último livro, O Império debaixo de Fogo, se a identidade se mantiver, mesmo que se perca a soberania, o que já aconteceu em 1580, será possível recuperá--la em momento propício, caso os valores da Nação tenham sido preservados.

Assim se percebe como é importante regular as profissões e estabelecer compromissos rigorosos. Que é pertinente questionar quem manda nos jornalistas e avaliar a importância dos conteúdos programáticos seja em informação ou em programação... Só assim se contribui para que os espectadores consolidem o espírito crítico e possuam a informação necessária para se integrarem numa sociedade cada vez mais competitiva.

Mas como? O politicamente correcto, a formalidade, os lóbis, o medo de afrontar, o cinismo e o salve-se quem puder ameaçam envenenar as relações do País. Só há uma forma de os vencer: no plano mediático, a Televisão tem que inovar, marcar a diferença, questionar ideias, escolher o melhor da sociedade e seduzir pela seriedade.

Numa palavra, é preciso correr o risco, ter coragem de Falar Verdade, apesar dos Prós e Contras que isso comporta!

Quem o fizer, ganha. Conquista a Televisão e o respeito do País.

7:56 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Não, não conheço. E porque é que haveria de irritar-me? Eu até sou um espectador assíduo da liga dos últimos...

fta

10:39 da manhã  
Blogger Cãocompulgas said...

Bonito.

12:42 da tarde  
Anonymous Medeiros said...

Interpretaste exactamente o que quis dizer no expresso da meia-noite, agradeço-te a ajuda bibliográfica, e gostei de receber os parabéns inter-bloguistas

11:53 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Bonito poste. É bem teu. ;) beijinho B

8:17 da tarde  

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