segunda-feira, dezembro 05, 2005

Posta aberta a Maria Filomena Mónica


Confesso: foi por puro voyeurismo que comprei o seu livro. Não que não gostasse de si ou da sua obra. Lera, apaixonado, a magnífica biografia do Eça, por exemplo. Mas, desta vez, perguntava-me o que poderia ter de assim tão interessante a biografia de uma socióloga da nossa praça. Pelo seu próprio punho. Exercício onanístico ou pouco mais? Não sei, mas não pensava ler essas linhas. Sobretudo depois de ter lido e ouvido relatos do "Bilhete de Identidade", perante os quais me senti incomodado. Dizia-se, diz-se, que o livro era sobretudo (peço desculpa pela linguagem crua) uma espécie de relatório dos seus lençois. Uma monografia da sexualidade da Mena.
Ainda assim, não resisti e a meio da semana passada, numa incursão cirúrgica à FNAC, para de lá trazer o Cunhal, o último do Lodge, o Roth, entre outros, o seu "Bilhete de Identidade" lá foi, envergonhadamente, parar ao saco. Mal cheguei a casa folheei-o (antes mesmo de tirar os outros do saco), indo em busca dos pormenores de alcova. Tão só. Do VPV ao António Pedro Vasconcelos, do A. ao Z.C., etc, etc. Voyeurismo em estado puro... devia ser do espírito natalício, pensava eu para me autodesculpar.
Passadas, lidas e relidas, vasculhadas mesmo, essas páginas, pu-la de lado. A nossa relação não ia mesmo mais além, decidira.
Mas eis que, nestes quatro dias de pousio, dei por mim a voltar a pegar-lhe, a acariciar-lhe, primeiro ao de leve, depois sofregamente. Em boa verdade, peguei-lhe e não mais a larguei. E para isso serve esta posta. Para, publicamente (publicamente no sentido do universo mínimo que vai ler isto) lhe pedir desculpas.
A senhora (que eu não conheco, nunca vi mais gorda - e sobretudo não conheci quando era um borracho) escreveu um grande livro. Sobretudo, um livro que é um extraordinário retrato da sociedade lisboeta dos anos 50 a 70. Um retrato que nos mostra como viviam as pessoas que calcorreavam as mesmas ruas que eu hoje piso. Que olhavam as mesmas fachadas que hoje me protegem da chuva invernosa. O que pensavam, o que faziam, como viviam.
Um retrato de uma mulher educada num meio muito católico e que está no auge da vida (fisica e intelectualmente) quando a sociedade portuguesa era uma panela de pressão prestes a explodir. Uma fotografia nítida para ajudar a completar o álbum do Portugal daquela época.
O meu incómodo (que não desapareceu) fora largamente superado pelo fantástico retrato de um País através do olhar de uma mulher cultivada.
Uma leitura imprescindível... Para quem gosta desta cidade! Uma leitura dispensável para quem quer saber pormenores escabrosos da vida de outrém e que se for nessa é melhor não ir nisso. O seu livro não é isso. É outra coisa e uma outra coisa muito mais que isso.
Obrigado por esta excelente prenda de Natal! Bem haja (a nossa relação fica por aqui).

10 Comments:

Blogger LRosa said...

Até que enfim um elogio! Ainda por cima sentido, honesto e descomplexado. Estava a ver que as críticas a um livro polémico ficariam pelas apreciações hipócritas e moralistas de criaturas que gostam de se ver como cosmopolitas - ler, como exemplo, JPH no Glória Fácil (com a atenuante de já ter pedido desculpa) - e Manuel na Grande Loja do Queijo Limiano.
Filomena Mónica teve coragem para escrever um livro que muitos - a começar pelos protagonistas da sua história - não queriam. Sendo uma mulher emancipada - ao contrário de muitas portuguesas - assumiu descomplexadamente a sua vida intíma, suscitando censura até nos esquerdistas bem pensantes - aqueles que defendem, entre outras grandes causas, a educação sexual e a distribuiçao dos preservativos nas escolas.
De facto, o livro vale não só pela qualidade da escrita, como também pelo retrato polaroid que Filomena Mónica faz do Portugal do Estado Novo com os olhos de uma rapariga/muulher da burguesia lisboeta. Vale também pela descrição de parte da elite sócio-económica do Estado Novo e dos chamados católicos progressistas, além de permitir conhecer um pouco melhor alguns intelectuais que, através da comunicação social, vieram ganhar importância no pós-25 de Abril como Pulido Valente, António Pedro Vasconcelos, César Monteiro, etc. Mas, essencialmente, vale a pena porque descreve parte da vida de uma mulher que quis ir mais além do que a sua família - e o Estado Novo - planeara para ela. Vale a pena, enfim, por descreve a luta de uma mulher pela sua empancipação.
Estranho, aliás, que o feminismo histérico residente no Glória Fácil ainda não tenha dado sinais de vida. Será que é pelo facto de, nesta história, não existir nenhuma bandeira de arco íris? Luís Rosa

7:04 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Eu que, para contrariar a minha faceta voyeurista, tinha decidido não o ler fiquei convencida, com o magnífico texto do Martim, que o livro é muito mais do que à primeira vista pode parecer. Amanhã vou comprá-lo.

9:08 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Antigamente dizia-se que o amor era a dois. Ou a três, quando saía a taluda.

Agora é aos milhares. lololololol

Bendita a intelectualidade portuguesa. Há quem sonhe ser-se recordada como uma espécie de Madame de Beuavoir, mas acaba por tornar-se uma espécie de exibicionista para parolo portuga ler. Com o devido respeito aos que leram a auto-estrogafia.

Achei piada a esta prosa intelectualizante:

"Sendo uma mulher emancipada - ao contrário de muitas portuguesas - assumiu descomplexadamente a sua vida intíma"

Imaginem eu contar ao maralhal as noitadas que passei com algumas ditas senhoras intelectuais. Caía o Carmo e a Trindade. Machismo egoísta exibionista, diriam outras.

Pois. O feminismo parolo à portuguesa, bem patente na revelação das intimidades que deviam ser privadas. E íntimas!

Alguém tem aí uma playboy antiga? :-)

Pobre e triste país o nosso. Estamos entregues à parolada com a mania que é intelectual.

PM Não. Não sou coscuvilheiro. Se o fosse... eh! eh! eh! eh! eh! eh! Queria a companhia de uma Sahrazad até ao fim dos meus tristes dias.

11:09 da tarde  
Blogger António Viriato said...

Permitam-me uma opinião de leitor simpatizante e apreciador da autora nas suas múltiplas qualidades. O livro é fraco, literariamente, mas interessante como documento, com testemunho de uma vida vivida intensamente, numa dada época de franca mutação social, nas ideias e nos costumes. É, no entanto, bastante inferior a qualquer outro dos seus anteriores, particularmente inferior ao da biografia do Eça, bastante bom, até como peça literária. Neste BI, parece dominante uma certa pulsão exibicionista, de mulher emancipada, excessivamente orgulhosa do facto. Também me caiu mal a identificação real dos personagens, com os seus nomes escarrapachados publicamente e algumas alusões desdenhosas a putativos fracos desempenhos amorosos ou sexuais de conhecidas figuras, como, por exemplo, João Caraça e, nalguns transes, Vasco Pulido Valente. Julgo que nada disto traz qualquer valor ou interesse acrescidos à obra memorialística, noutros pontos bastante meritória, repito, sem igualar alguns dos seus livros anteriores. No mais, ressalta o seu espírito combativo, perseverante, pese a boa rede de relações sociais familiares e de afinidade, sempre favoráveis em situações difíceis, de maior aperto. MFMónica, no entanto, acabou por realizar, no período coberto no livro, reconheça-se, um percurso de emancipação, sobretudo, intelectual, cortanto com certos devaneios esquerdistas e até socialistas, que alguns, por isso mesmo, ainda hoje lhe não perdoam.De resto, coisa semelhante aconteceu com António Barreto, cujo ganho em lucidez e credibilidade intelectual se tornou notório, a partir do momento em que se desligou da família «socialista ou soarista». Esperemos, no entanto, pela segunda parte das memórias, visto que, de 1976 até à actualidade, muita coisa interessante aconteceu certamente com MFM, ainda que presumivelmente num registo menos escaldante. Porém, nada melhor que aguardar pela sua pessoal versão dos factos...

11:19 da tarde  
Blogger inês said...

oh caneco! eu que estava a pensar não o ler... vou ter de o comprar. a prosa do martim já me tinha picado, mas foi a polémica que me convenceu. lá sevão mais uns cobres... é a vida!

12:52 da tarde  
Blogger FTA said...

Fui eu que te censurei, o Martim é mais democrático...

12:15 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Ó Chico, a mim ninguém me cala!
Tou à tua espera hoje ás 1430 na porta 10A

12:48 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

A celeuma realmente está-me a picar a curiosidade, mas não me apetece nada uma cena superficial listinha de casos amorosos... Burguesia lisboeta? Nã... Eu sou do Portugal profundo... Vou mas é ler Aquilino Ribeiro.

7:10 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

E se algum intelectual, de esquerda ou de direita,resolver cantar a ária do Laporello?Será então machismo?
Dito isto, até gostei do livro da Mena Mónica e felicito o Martim Silva pela honestidade intelectual

11:26 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Não vale a pena perder tempo c/ gente tão snob, tão mal resolvida afectivamente e tão autocentrada em sexo.
Mas isto é uma pessoa? Uma pessoa divide as outras em "palermas c/ blazer e palermas sem blazer", como se pode ler no seu livro? "A Vitória era estúpida"? a Vitória trabalhou para a sua família em todos os ramos que à dita família lhe deu na gana, e foi competente, como reconhece no seu livro. Eram todos estúpidos, feios porcos e maus? Só em Portugal ou no mundo inteiro?

Criatura mal resolvida afectivamente, coitado de quem a aturou.

Escreva biografias de Eça que sempfre podem servir para alguma coisa.
Freud explica tudo. Vá-se tratar.

10:53 da manhã  

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