sexta-feira, dezembro 16, 2005

Magia

Estava aqui a pensar, penso nisto quase todos os dias, nos passageiros do avião com o trem de aterragem estragado que estavam dento do avião a ver televisão e que, de repente, viram que era o seu avião que estava a ser filmado e que podiam morrer dentro de poucos minutos. Não morreram, felizmente, mas a história não me sai da cabeça. Até porque há poucos dias voltei a ler as Outras Inquirições do Borges e descobri (não me lembrava de uma linha) lá uma história absolutamente fantástica sobre a magia do Quixote. Diz o escritor argentino que num episódio do D. Quixote, passado na biblioteca, um dos livros consultados é a Galanteia de Cervantes. O barbeiro que consulta o livro diz que "tem um pouco de boa invenção, propõe alguma coisa e não diz nada". Ou seja, e como diz Borges, "O barbeiro, sonho de Cervantes ou forma de sonho de Cervantes, julga Cervantes...." Outros exemplos são dados por Borges: Shakeaspeare "que inclui no cenário de Hamlet outro cenário, onde se representa uma tragédia, que é mais ou menos a de Hamlet"; a 602ª história das Mil e uma Noites, fábula onde "o rei ouve da boca da raínha a sua própria história"
Eu que sempre fui fascinado por estas coisas (o Luís Carmelo ensinou-me um conceito que correspondia a este fenómenos das janelas dentro das janelas mas eu não me consigo lembrar dele) fiquei siderado com a conclusão argentina: "Tais inversões sugerem que se os caracteres de uma ficção podem ser leitores ou espectadores, nós, seus leitores ou espectadores, podemos ser fictícios". Está alguém aí?

11 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Eu não sei se isto que eu vou escrever tem alguma coisa a ver com a tua posta (já a li três vezes e até fui buscar os óculos). Mas eu penso nisto quase todos os dias: e se nós somos o sonho de alguém? E se esse alguém está quase a acordar com o som de um despertador, ou do gato que está a raspar na porta pedindo o pequeno almoço?
Dia

1:09 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Ó Chico, vai ao teu mail e confirma o jantar de natal

1:14 da tarde  
Blogger Sílvia said...

Nesse caso, sugiro-lhe este
livro. Vai adorar.

"...era como ler um texto que eu tivesse mesmo escrito, porém com as palavras deslocadas. Era como ler uma vida paralela à minha, e ao falar na primeira pessoa, por um personagem paralelo a mim, eu gaguejava. Mas depois que aprendi a tomar distância do eu do livro, minha leitura fluiu. Por ser preciso o relato e límpido o estilo, eu já não hesitava em narrar passo a passo a existência tortuosa daquele eu."
Chico Buarque, Budapeste.

E isto tudo deu-me vontede de reler Ficcões, de Borges.

1:15 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Nos últimos dias sinto que estou a viver a vida de outra pessoa, num argumento de série Z, de um Deus cruel e com um grande sentido de humor. Percebo o que a tua 'posta'...

1:29 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Morremos, Dia?

fta

1:49 da tarde  
Blogger FTA said...

O jantar está confirmado. Lá estarei, lindos!

1:49 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Podemos ser um daqueles sonhos recorrentes e voltar (o que é que fazemos entretanto é que é uma boa questão também...)

E estou solidária com o comentador que diz que os últimos dias são um filme de série Z.

Dia

2:18 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Obrigada pela solidariedade, mas sinceramente preferia que alguém me indicasse a porta de saída.
C.

3:25 da tarde  
Anonymous tsm said...

Já leste "City of Glass", The New York Trilogy, Paul Auster? Fabuloso no jogo de espelhos.
E que tal isto: http://www.rainhadapaz.g12.br/projetos/artes/imagens/im_picasso/velazquez_meninas.jpg

3:55 da tarde  
Anonymous tsm said...

http://www.revista.art.br/
site-numero-03/trabalhos/
artigo1/image001.jpg

Não consigo pôr o link completo. Teve de ser assim, mas o que queria mostrar é o quadro "As meninas" do Velasquez.

3:58 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Manda-me o mapa, se encontrares a saída entretanto...
Dia

(Word verification interessante o que me calhou: QFRIO)

4:47 da tarde  

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